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Proibir redes sociais para jovens não resolve sozinho riscos do ambiente digital, aponta especialista

20 de ago.
3 min de leitura

Pesquisadora defende que proteção de crianças e adolescentes deve combinar segurança das plataformas, acompanhamento das famílias e atenção a outros fatores relacionados à saúde mental


Arapiraca, 20 de agosto de 2026

A preocupação com o impacto das redes sociais sobre crianças e adolescentes tem levado diferentes países a adotar ou discutir restrições de acesso às plataformas. Mas simplesmente proibir o uso pode não ser suficiente para proteger os jovens e ainda deixar em segundo plano outros fatores relacionados à saúde mental.

Essa é a avaliação da psicóloga canadense Candice Odgers, professora da Universidade da Califórnia em Irvine (UCI), nos Estados Unidos, e pesquisadora da saúde mental de crianças e adolescentes há cerca de 25 anos.

Segundo a especialista, as pesquisas disponíveis não sustentam a ideia de que smartphones e redes sociais, isoladamente, sejam responsáveis pelo aumento de casos de ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental entre os jovens.

Estudos identificam associações entre maior uso das plataformas e alguns indicadores de sofrimento psicológico, mas, de acordo com Odgers, esses efeitos costumam ser pequenos. A pesquisadora ressalta ainda que uma associação não significa necessariamente que o uso das redes seja a causa do problema. Em alguns casos, adolescentes que já enfrentam dificuldades emocionais podem passar mais tempo conectados.

A análise fica ainda mais complexa quando são considerados fatores como traumas vividos na infância, contexto familiar e saúde mental dos pais. Para Odgers, concentrar o debate apenas nas redes sociais pode desviar a atenção de questões sociais e familiares que também influenciam diretamente o bem-estar dos adolescentes.

Isso não significa, porém, ignorar os riscos do ambiente digital. A pesquisadora reconhece que crianças e adolescentes podem ser expostos a bullying, assédio, abuso, conteúdos inadequados e mecanismos das próprias plataformas capazes de ampliar experiências negativas, principalmente entre pessoas que já se encontram em situação de vulnerabilidade.

Por isso, ela defende maior responsabilização das empresas de tecnologia e medidas de segurança incorporadas ao próprio funcionamento das plataformas.

No Brasil, a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital ganhou novas regras com o ECA Digital, que estabelece obrigações e mecanismos de proteção para serviços e plataformas acessados por menores de idade, sem determinar uma proibição geral das redes sociais para esse público.

Para Odgers, medidas voltadas à segurança do ambiente digital podem ser mais eficazes do que simplesmente tentar afastar crianças e adolescentes das plataformas. Uma das preocupações é que restrições rígidas acabem levando os jovens a utilizar espaços menos regulados ou a omitir experiências negativas por medo de perder o acesso à internet.

A discussão ocorre em meio ao avanço de restrições em diferentes países. A Austrália foi pioneira ao estabelecer uma proibição de redes sociais para menores de 16 anos, enquanto outras nações também passaram a discutir limites de idade e regras específicas para as plataformas.

Na avaliação da pesquisadora, outro ponto que precisa ser considerado é que a experiência dos adolescentes na internet não é exclusivamente negativa. Para alguns jovens, especialmente aqueles em situações de maior vulnerabilidade, o ambiente digital também pode oferecer conexão com amigos, acesso a informações, espaços de pertencimento e canais para buscar ajuda.

A questão, portanto, passa pela maneira como essas ferramentas são utilizadas e pelas condições oferecidas para que crianças e adolescentes desenvolvam uma relação mais segura com a tecnologia.

Nesse processo, a responsabilidade não deve ficar exclusivamente com as famílias. Empresas de tecnologia, governos, escolas e a própria sociedade também precisam participar da construção de ambientes digitais mais seguros.

Para pais e responsáveis, a pesquisadora considera importante avaliar a maturidade da criança ou do adolescente, a rotina familiar e escolar e a capacidade de utilizar os dispositivos com responsabilidade. Em vez de uma idade única que funcione para todos, a decisão sobre o primeiro celular ou o acesso a determinadas plataformas deve considerar as características de cada família.

A discussão tende a ganhar novos contornos com o avanço da inteligência artificial e as rápidas transformações das plataformas digitais. Para Odgers, acompanhar essas mudanças e ouvir os próprios jovens será fundamental para desenvolver políticas capazes de reduzir riscos sem ignorar a forma como crianças e adolescentes já vivem e se relacionam no ambiente digital.

 
 
 

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